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70 ANOS DO ÍBIS A grandeza de ser o pior Publicado em 15.11.2008 Motivo de piada para uns, de orgulho para outros, o Íbis completa hoje 70 anos de fundação. O rótulo de Pior Time do Mundo rompeu as fronteiras de Pernambuco e atingiu uma escala mundial. Agora, a fama pode trazer lucros. Leia amanhã entrevista com o mais famoso e excêntrico ídolo do clube: Mauro Shampoo.
Marcos Leandro
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Foram 55 jogos sem vitória, entre os Campeonatos Pernambucanos de 1980 a 1984. O jejum começou na derrota por 3x0 para o Sport, no dia 23/7/1980, e só terminou em 17/6/1984, quando o Íbis bateu o Santo Amaro por 3x1. Neste período de seca, o Pássaro Preto acumulou 48 derrotas e sete empates. No Estadual de 1981, perdeu os 18 jogos disputados. Tais “façanhas” o rotularam como Pior Time de Mundo, com direito a citação no Guinness Book, o Livro dos Recordes. Completando 70 anos hoje, o Íbis quer lucrar com a fama. “Queremos aproveitar a empatia com o público. O futebol tem esse lado exótico e o Íbis não valoriza a força que tem. Para se ter uma idéia, aqui em São Paulo, as fábricas só vendem camisas do clube por encomenda. Queremos mudar essa realidade”, destaca Alex Castanho, diretor comercial da Self Publicidade e Comunicação. A contratação da empresa paulista, que vai cuidar da imagem do clube, foi um dos frutos preliminares da parceria do Íbis com o empresário português Filipe Fernandes, autor do projeto Íbis – Século XXI, que será apresentado oficialmente no dia 29 de novembro e pretende revolucionar o Pássaro Preto. A idéia é transformá-lo em um clube-empresa, com a criação do Íbis Sport Club Ltda. O projeto visa dar uma cara nova ao Íbis, que este ano chegou a levar W.O. na Segunda Divisão do Estadual. “Qualquer um poderá investir no novo Íbis. Vamos criar um fundo para arrecadar recursos. O Íbis Ltda terá cotas a R$ 3, valor acessível a qualquer um”, diz Filipe Fernandes, que representa a empresa de financiamentos e investimentos corporativos, Finincorp. Os contatos entre o empresário português e o Íbis começaram há cerca de dois meses. “Ele nos procurou, fez a proposta e assinamos a parceria. O projeto é muito bom. Visa trabalhar a formação de jogadores, com as atenções voltadas para o mercado argentino e italiano”, adianta Meiber Ramires, que assumirá a presidência do Íbis no próximo biênio. Para isso se tornar realidade, a principal meta é construir um Centro de Treinamento na Região Metropolitana do Recife, orçado em R$ 15 milhões. O novo site do clube www.ibissportclub.com já está em funcionamento. Por ele, serão escolhidos os novos escudo e uniforme. “O Íbis tem que voltar à mídia, pois é um clube leve para se torcer, sem compromisso com a arenga. Até porque ele nunca vence”, brinca Cláudio Cabral, 44 anos, diretor de arte da Link Propaganda. Natural de Garanhuns, quando veio para o Recife, em meados da década de 70, ele gostava do Sport. Até que as sucessivas goleadas sofridas pelo o Íbis o cativaram. “Quando o Íbis jogava na capital, eu o acompanhava com mais freqüência. Lembro que a última vez em que o Íbis disputou a Série A, em 2000, venceu o Náutico por 1x0 nos Aflitos. Passei dois meses zoando do meu irmão, que é alvirrubro”, disse Cabral. Este ano, o Íbis levou seus jogos para Carpina, já que o estádio Ademir Cunha, em Paulista, está interditado. 70 ANOS DO ÍBIS Um nome internacional Publicado em 15.11.2008 A fama do Íbis tem servido de inspiração para novas agremiações. Em Lisboa, um grupo de jornalistas, à frente João Matias, ex- repórter de A Bola, fundou o Íbis Sport Club de Lisboa. Na estréia, o novo time ganhou do seu adversário, equipe também de jornalistas. Ao titular a matéria sobre o jogo, A Bola divertiu-se: Já começa mal! Ainda em Lisboa, existe uma associação dos amigos do Íbis, que envia e-mails e fax indignados quando o Íbis por acaso vence um jogo. A associação considera que essas vitórias, ainda que escassas, causam dano à imagem do Pássaro Preto. Um programa de RTP-N de grande audiência em Portugal, a Liga dos últimos, acompanha a carreira dos times lanterninhas. E finalmente, uma banda de punk-rock, composta por duas mulheres e dois homens, batizada de Íbis, que só canta canções falando de derrotas. A influência é claríssima. O honroso e invejável título de o pior time do mundo foi conquistado nos gramados, contra adversários incomparavelmente mais fortes e sem ajuda de conluios ou recursos no tapetão. Mesmo que o time venha a baixar anda mais de divisão, acredito que por uma espécie de direito adquirido, usucapião, ou seja lá o que for, o Íbis será sempre o "pior time do mundo", pelo menos no coração de todos os pernambucanos. (DG) 70 ANOS DO ÍBIS Pássaro Preto é resistência Publicado em 15.11.2008 Duda Guennes Especial para o JC Em 15 de novembro de 1938, os funcionários da fábrica Tecelagem de Seda e Algodão de Pernambuco (Tsap), que ficava na Av. Visconde de Suassuna, fundaram o Íbis Sport Club, que ao longo desses 70 anos projetou o Recife na geografia do futebol mundial. O que deveria ter sido apenas uma associação recreativa se tornou referência e, às avessas, um clube amado pela força de sua resistência. Enquanto muitas agremiações do nosso futebol, algumas tradicionais, já fecharam as portas, o Pássaro Preto permanece vivo, mesmo sendo o pior do mundo ou talvez por isso mesmo. Quem o batizou foi buscar algo muito forte na mitologia egípcia para nomeá-lo: o símbolo do deus Thoth (juiz dos mortos – corpo de homem e cabeça de íbis, o pássaro preto) para o qual se faziam sacrifícios. Mumificados, os mortos permaneciam na lembrança de todos. É o mito da eternidade. Em 1947, nove anos depois de fundado, o Íbis fez sua estréia no Campeonato Pernambucano. Um começo negativo, mas retumbante: tomou uma goleada de 9x2 do Náutico. Seu destino estava traçado. Daí para frente, com fiapos de pausa, foi só cumprir seu fadário: perder. Algumas derrotas com mais de dez gols levados (ver quadro ao lado). As pausas foram poucas, mas deram ensejo a muita gozação e ao sorriso dos seus poucos torcedores. Completamente incapaz de competir por falta de meios, o Íbis aceitou do poderoso Sport chuteiras, calções, meias e até jogadores. Pois, no primeiro encontro entre ambos, o Íbis bateu seu benfeitor por 1x0, gol de um dos jogadores emprestados. Antes disso, já havia sido campeão do Torneio Início (1948/50), a abertura do campeonato, quando todos se enfrentavam em jogos eliminatórios de 20 minutos. Em sua última vez na Primeira Divisão, em 2000, bateu no Náutico, que estava em péssima fase. Uma das glórias do Pássaro Preto é que dois grandes craques, ambos da seleção brasileira, começaram no time da Tsap: o centroavante Vavá, bicampeão mundial em 1958/62, e o lateral esquerdo Rildo, que disputou a Copa de 1966 (Inglaterra) e as eliminatórias da Copa de 1970, no México. Quando a fábrica resolveu fechar o clube, a família de Ozir Ramos assumiu e, teimosamente, seguiu com a saga do Pássaro Preto.
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